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O menino e a Sombra


Escondido no fundo de um poço

O menino escapou da chacina

Lá embaixo escutou o alvoroço

E os gritos que vinham de cima


Era um poço antigo e seco

Com o fundo cheio de barro

E de frente ao menino, um espelho

Esquecido ali, encostado.


Entre prantos o povo gritava:

“Acabou-se! É o fim dessa era.”

Enquanto a luz da Lua se apagava

E o seu brilho sumia da terra

O menino, sem entender nada

Suspirou uma pergunta sincera


“Por que as eras terminam?”

Chorou o pequeno, inocente.

E de dentro do espelho do poço

Uma sombra falou de repente:

“TODA ERA ESPERA UM FINAL

CONFORME MANDA O COMPASSO

DO ARCANO REGENTE ATUAL

MAJESTADE DA CASA DOS ASTROS


QUE REINA UMA CORTE DE ESTRELAS

NA ESTRADA DOS MORTOS, NO CÉU

QUE DÁ RUMO À VIDA DA GENTE

AQUI E MUITO ALÉM DESTE VÉU

DANÇANDO NOS ARCOS DAS LUZES

DE ONDE BRILHA O SEU CARROSSEL


Mas ninguém governa pra sempre

Tanto aqui, como embaixo ou lá em cima

Quando cai o astro vigente

A Era do Arcano termina


E APROVEITO ESSA NOSSA BOA PROSA,

PRA DEIXAR-TE UM SOTURNO AVISO

DE QUE MUITO EM BREVE VEM VINDO

O SENHOR DO DIVINO JUÍZO!

QUE VEM PRA TOCAR O DESTINO

E ARRASTAR-TE DIRETO PRO ABISMO!”


O menino quebrou o espelho

Assustado com a voz do umbral

E atrás da moldura vazia

A escuridão revelou um portal

Então os cacos seguiram falando

Mil vozes entoando em coral


“É O FIM DA ERA PRATEADA

DA CELESTE RAINHA SEREIA

TODA LUZ DE SUA LUA, USURPADA

LOGO SE DESFARÁ COMO AREIA

E A ESTRELA NORTENHA QUE É FRIA

VAI CHEGAR PRA ROUBAR SUA CENTELHA”


Dito isso, as vozes se calaram

E o menino na escuridão dormiu

Estirado sobre as lascas que o cortavam

Tão exausto, o pequeno nem sentiu


E em seu sonho, finalmente ele entendeu.

A um som retumbante em apogeu

Naquela noite foi seu mundo que morreu.


-


As rodas de beatos confirmam:

São tempos de muita má sorte.

De um arcano deveras terrível,

Até mesmo pior que o da Morte


O bardo já anda entre a gente

É bom que você se comporte

Sua estrela fria e azulada

Brilha cada vez mais forte

E seu berrante, quando toca

Quebra o mundo em desacorde


“Que Xico Curinga dê sorte!”


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