O menino e a Sombra
- O Beato

- 13 de ago.
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Escondido no fundo de um poço
O menino escapou da chacina
Lá embaixo escutou o alvoroço
E os gritos que vinham de cima
Era um poço antigo e seco
Com o fundo cheio de barro
E de frente ao menino, um espelho
Esquecido ali, encostado.
Entre prantos o povo gritava:
“Acabou-se! É o fim dessa era.”
Enquanto a luz da Lua se apagava
E o seu brilho sumia da terra
O menino, sem entender nada
Suspirou uma pergunta sincera
“Por que as eras terminam?”
Chorou o pequeno, inocente.
E de dentro do espelho do poço
Uma sombra falou de repente:
“TODA ERA ESPERA UM FINAL
CONFORME MANDA O COMPASSO
DO ARCANO REGENTE ATUAL
MAJESTADE DA CASA DOS ASTROS
QUE REINA UMA CORTE DE ESTRELAS
NA ESTRADA DOS MORTOS, NO CÉU
QUE DÁ RUMO À VIDA DA GENTE
AQUI E MUITO ALÉM DESTE VÉU
DANÇANDO NOS ARCOS DAS LUZES
DE ONDE BRILHA O SEU CARROSSEL
Mas ninguém governa pra sempre
Tanto aqui, como embaixo ou lá em cima
Quando cai o astro vigente
A Era do Arcano termina
E APROVEITO ESSA NOSSA BOA PROSA,
PRA DEIXAR-TE UM SOTURNO AVISO
DE QUE MUITO EM BREVE VEM VINDO
O SENHOR DO DIVINO JUÍZO!
QUE VEM PRA TOCAR O DESTINO
E ARRASTAR-TE DIRETO PRO ABISMO!”
O menino quebrou o espelho
Assustado com a voz do umbral
E atrás da moldura vazia
A escuridão revelou um portal
Então os cacos seguiram falando
Mil vozes entoando em coral
“É O FIM DA ERA PRATEADA
DA CELESTE RAINHA SEREIA
TODA LUZ DE SUA LUA, USURPADA
LOGO SE DESFARÁ COMO AREIA
E A ESTRELA NORTENHA QUE É FRIA
VAI CHEGAR PRA ROUBAR SUA CENTELHA”
Dito isso, as vozes se calaram
E o menino na escuridão dormiu
Estirado sobre as lascas que o cortavam
Tão exausto, o pequeno nem sentiu
E em seu sonho, finalmente ele entendeu.
A um som retumbante em apogeu
Naquela noite foi seu mundo que morreu.
-
As rodas de beatos confirmam:
São tempos de muita má sorte.
De um arcano deveras terrível,
Até mesmo pior que o da Morte
O bardo já anda entre a gente
É bom que você se comporte
Sua estrela fria e azulada
Brilha cada vez mais forte
E seu berrante, quando toca
Quebra o mundo em desacorde
“Que Xico Curinga dê sorte!”


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